Bru Junça, contadora de histórias

Bru Junça, contadora de histórias

Ora bem, a Bru Junça passou o dia de ontem, 12 de março, a contar histórias aos alunos do nosso Agrupamento. Foram cinco sessões (duas para o 1º ciclo, uma para o 2º ciclo, outra para o 3º ciclo e, finalmente, uma última para o Secundário).

A Bru gosta de se apresentar assim: “Foi em Évora que acordei para Vir ao Mundo. 
Terra onde finquei raízes de afectos, 
Flori sonhos e Colhi o fruto, ora amargo ora doce, 
do tamanho das vontades que ousei plantar. 
É Baralhando Histórias, voltando a ouvir e a contar que
(me) vou contando.
Gosto de contar o tempo, de percebê-lo. Talvez, por isso,
goste de o conjugar verbalmente no gerúndio,
dando-lhe uma Ideia de infinitude, ainda que ilusória.
Na minha bagagem carrego livros, muitos livros, guardo canto que me é chão e até um Farol só Meu para não esquecer o norte do caminho.
Carrego medos grandes e pequenos e um grande espaço vazio.
Feito à Mão levo os livros de pano que nascem 
das minhas memórias e de inúmeros retalhos de pano.
Com o Tempo descobri que Para Sempre é muito tempo
e que, mais cedo ou mais tarde, o Tranglomanglo virá bater-me à porta.
Depois apenas ficarei, para sempre, no Museu do Tempo daqueles que me
quiserem guardar na sua memória.
Eu Espero… enquanto vou contando.”

https://www.youtube.com/watch?v=BexG3zkk6W4

Queríamos agradecer aos responsáveis pelo Auditório Raio de Luz a cedência da sala, permitindo assim que mais alunos pudessem viver estes momentos mágicos. E transcrevemos de seguida um dos contos que ontem ouvimos. Na versão da Bru, a pereira transforma-se em figueira.

A Tia Miséria Havia no princípio do mundo uma velhinha muito pobre e muito infeliz: era conhecida pela Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira defronte da porta. Tudo sofria com paciência e resignação, mas só uma coisa não desculpava, nem perdoava: que os garotos subissem à pereira e lhe comessem as pêras. Era capaz de dá-las todas sem provar uma, mas indignava-se contra os que lhas roubavam. Uma noite bateu-lhe à porta um pobrezinho; correu a abri-la e deu ao pobrezinho a migalha de pão que reservava para si. No dia seguinte despediu-se o pobre e disse-lhe que pedisse o que quisesse. Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento – respondeu a velhinha. – Assim será – respondeu o mendigo. No outro dia, quando saiu à rua, encontrou três garotos em cima da pereira. – Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus! Tire-nos daqui, não podemos descer. – Ah! Pois vocês diziam que não eram os ladrões das minhas pêras! Por esta vez, vá; Se lá voltarem hão-de ficar aí muitos anos. E os garotos desceram e não mais voltaram à pereira. Um dia de manhã, entrou-lhe em casa uma mulher de horrendo aspecto, vestida de negro e armada de foice, com as asas negras nos ombros e nos pés. – O que me quer? – Perguntou a Miséria a tremer. – Sou a Morte: venho buscar-te. – Já? Pois nem ao menos me dá um ano de espera? – Não pode ser –   respondeu a Morte. – Faça-me ao menos um favor: suba à minha pereira e colha-me a última pêra que me resta. Quero comê-la, visto que é a última. A Morte subiu à pereira, colheu a pêra, mas não pôde descer. Pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu: “Tem paciência, aí ficarás para todos os séculos. És má, tens feito muitas desgraças, roubando muitos pais aos seus filhos pequeninos…” E a Morte ficou em cima da pereira. Passados dias tinha a velhinha em frente da sua porta um exército, composto de padres que se queixavam de que não havia enterros, de escrivães que se lastimavam de não ter inventários, de delegados que se doíam de não fazer promoções orfanológicas, de juízes que se queixavam de não receber emolumentos das reuniões dos conselhos de família, das presidências nos actos de licitações e das sentenças em demarcações, enfim, de todos aqueles indivíduos que vivem da morte do próximo. Todos pediam à velhinha que autorizasse a Morte a descer da pereira, mas a velhinha respondia: “ Não quero, não quero e não quero”. Falou então a Morte do alto da pereira e fez com a velhinha um contrato: poupar-lhe a vida enquanto o mundo fosse mundo. A velhinha consentiu e a Morte desceu. Por isso enquanto o mundo for mundo a Miséria existirá sobre a Terra.

Conto tradicional português, recolhido por Ataíde Oliveira in https://lendo_e_entretendo.blogs.sapo.pt/

São livros «que fiam histórias, bordam lengalengas e cerzem cantilenas da tradição oral, ilustrados de uma forma simples, brincando com texturas, cores e padrões de tecidos.» in https://revistafabulas.com/2014/10/03/contos-tecidos-os-livros-de-pano-da-bru-junca/

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